top of page

A Grande Farsa da Sala de Aula Universitária: 30 minutos de conteúdo e 90 minutos desperdiçados

  • Foto do escritor: Gustavo Amaral
    Gustavo Amaral
  • 15 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Existe um problema estrutural na universidade brasileira que atravessa carreiras, áreas e metodologias:

O professor fala por duas horas para transmitir um conteúdo que exigiria trinta minutos — e os outros 90 minutos, que deveriam ser o coração da aprendizagem, simplesmente não acontecem.

Esse não é um problema das humanas, da comunicação, da pedagogia.Esse é um problema do modelo universitário como um todo.


1. A matemática que ninguém enfrenta


Uma disciplina média no Brasil:


  • 60 horas semestrais

  • encontros de 2 a 2,5 horas

  • 15 semanas


Com boa estrutura e boa oratória, o conteúdo expositivo de um encontro cabe em:


  • 20 a 30 minutos.


Isso está alinhado com:


  • MIT (micro-lectures de 15–25 min)

  • Harvard (short exposition + case)

  • Oxford (mini-exposição + tutorial)

  • Finlândia (explanação breve + atividade longa)


Ou seja: ninguém de ponta confia em aulas longas.


2. O verdadeiro problema: o tempo que deveria ser prático não é usado


Os 90 minutos restantes deveriam ser dedicados àquilo que transforma teoria em competência.


Mas a maior parte dos cursos cai em uma destas categorias:


  • professor copiando quadro

  • PowerPoint lido em voz alta

  • explicações repetidas 3, 4, 5 vezes

  • intervalos improvisados

  • exercícios feitos como “tarefa de casa”, nunca na aula

  • atividade prática reduzida a “façam em grupo” sem orientação


O resultado é universal:

o aluno escuta mais do que aprende e repete mais do que pensa.

3. Mas e os cursos que não permitem debate?


(Medicina, Engenharia, TI, Contabilidade, Odontologia, Enfermagem, Arquitetura, Agronomia…)


O erro é achar que debate = argumentar politicamente sobre temas abstratos.

Debate, no contexto de aprendizagem, significa:


o aluno ter que tomar uma decisão, justificar a decisão e defender o processo.

Isto pode ser adaptado para qualquer curso, mudando o formato:


4. Modelos de aula prática para TODOS OS CURSOS (substitutos diretos do debate)


1. “Case Decision” – Harvard Style

(Para Administração, Direito, Medicina, Engenharia, Agronomia, Contabilidade, TI)

O professor apresenta um caso real ou simulado:— “O hospital deve liberar esse procedimento?”— “Qual solução estrutural é mais segura?”— “Qual modelo matemático prevê melhor resultado?”

O aluno deve decidir, argumentar e justificar tecnicamente.

Não é política.É raciocínio aplicado.


2. “Simulação Guiada” – Modelo Finlandês

(Para saúde, engenharia, humanas, licenciaturas)


Passos:

  1. Exposição curta do professor.

  2. Simulação realista ou roleplay técnico.

  3. Análise orientada dos erros e acertos.


Exemplos:

  • enfermagem: atendimento simulado

  • medicina: discussão de conduta clínica

  • engenharia: falha estrutural simulada

  • direito: audiência simulada

  • pedagogia: mini-aula para colegas


3. “Laboratório de Decisão Técnica”

(Perfeito para áreas exatas e tecnológicas)

O aluno recebe dados.Tem que executar processos.Explicar escolhas.Comparar caminhos.


Ex.:

  • TI: escolher arquitetura, justificar trade-offs

  • química: escolher reagente, prever reação

  • física: escolher modelo, demonstrar cálculos

  • engenharia: justificar dimensionamento


Não é debate ideológico.É defesa técnica.


4. “Peer Teaching” – Método Israelense

(Funciona em todas as áreas)

Cada aluno explica parte do conteúdo para outro.Explicar = dominar.E ouvir = revisar.Professor supervisiona.Turma se torna ativa.


5. “Problem-Based Learning (PBL)”

(Método usado em Medicina em Harvard, USP-Ribeirão, McMaster)

O professor dá um problema sem solução pronta.Os alunos investigam, levantam hipóteses, testam caminhos.O professor é guia.


Isso funciona para:


  • medicina (casos clínicos)

  • engenharia (problemas reais)

  • administração (diagnósticos)

  • direito (dilemas jurídicos)

  • agronomia (problemas ambientais)

  • TI (bugs críticos, arquitetura)


6. “Clínica de Erros”

(Útil em todas as áreas técnicas)


O professor traz erros reais (ou simulados).Alunos precisam:


  • detectar

  • corrigir

  • explicar

  • prevenir


Aprendizagem brutalmente rápida.


7. “Prática Deliberada” (Peak Performance Model)

(Para cursos práticos: saúde, engenharia, direito, música, educação física)


O professor define micro-habilidades, e os alunos treinam uma a uma, com feedback imediato.


É o modelo que forma:


  • cirurgiões

  • atletas

  • violinistas

  • programadores de alto nível


A oratória do professor orienta.Mas o aluno executa.


5. Aulas de 2 horas podem funcionar — se usadas com inteligência


A divisão ideal para QUALQUER CURSO é:

1. 20–30 min — conteúdo expositivo

Claro, estruturado, direto.Sem rodeios, com narrativa, com lógica.

2. 30 min — prática guiada

Exercício, caso, simulação, problema.

3. 30 min — discussão técnica / justificativa

Não é debate ideológico.É defesa racional do caminho escolhido.

4. 30 min — produção ativa


Construção, execução, modelagem, prototipagem, escrita, cálculos, simulação, apresentação.


Essa estrutura:


  • elimina desperdício,

  • aumenta engajamento,

  • prepara para o mercado,

  • resolve a passividade das aulas,

  • torna o professor facilitador de competência,

  • transforma horas em aprendizagem real.


Conclusão: o problema da universidade brasileira não é tempo — é o uso trágico do tempo


Não adianta ter duas horas de aula se 90 minutos são desperdiçados no quadro, no slide, no monólogo, na repetição.


O problema real é:


  • comunicação pobre,

  • falta de estrutura,

  • atividades práticas ignoradas,

  • professores despreparados para conduzir processos,

  • cultura de ensino baseada no passado.


Independentemente do curso, área, faculdade ou método, uma coisa é certa:

O aluno aprende quando pensa, decide, executa, aplica — não quando copia.

A universidade precisa acompanhar o mundo.E o mundo já aprendeu:aula longa não educa.aula ativa educa.

O tempo existe.O que falta é maestria na condução dele.

 
 
 

Comentários


bottom of page